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Dentro Dôrrego
Na Denfesa tem um café, dizem que o primeiro de San Telmo, chamado Dôrrego em homenagem ao marechal, claro, Dôrrego. Dentro, ele é todo de madeira e vidro. Foi um dos locais de encontro dos boêmios do bairro como Gardel, Borges entre outros similares porém nem tão famosos. Hoje, por volta das 15h tomei um café no local e fiquei durante um bom tempo contemplando as pessoas pelas vidracas e o ambiente no interior. Outra dimensão.
: : O ar nostalgesse meus pulmões
O cheiro mistura-se à visão
Criando um dia de infinita alusão
Qualquer imagem será um complemento
Dessa espécie de sonho, do fulgor do pensamento
Borges sentou-se ao meu lado
Pois não se fez de rogado
Sua boca forma um bico
Dizem os hermanos que é umbigo
Pero yo lo siento amigo : :
Escrito por Jousi às 20h44
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Sangue frio e dá-lhe Brasil
Domingo cheguei a San Telmo nos 30 minutos do segundo tempo de Brasil e Argentina. Havia passado o dia na Feria Mataderos, que mais tarde conto como foi. A televisão do Sandanzas estava concorrida. As européias assistiam Assassinos por Natureza, logo eu é que não iria interromper. O jeito foi sair procurar algum bar que tivesse uma tv ligada na partida. Não foi fácil encontrar. Aqui os cafés monopolizam a oferta de locais. E, obviamente, café e futebol não combinam.
Encontrei um bar no qual da porta envidracada avistei uma tv ao fundo. Entrei ofegante e me aplastei na primeira cadeira vazia, vista pefeita para o aparelho. Alguns segundos e olho ao redor : argentinos nervosos espalhados pelas mesas e eu vestindo um canguru amarelo.
1 a 1 e nada demais. Pedi uma cerveja que levou uns 10 minutos para vir. Certamente, paranoiei que estivessem ignorando meu pedido, pois eu era brasileira. Argentina marca o segundo gol. Pulos, gritos, risadas e beijos. Sim, os homens argentinos se beijam muito e se tocam. Ingenuamente, o dono do bar pensa que sou carioca. Faz piadas com o Garotinho ( !) e fala « ella no entende », acreditando que eu não entendia as brincadeiras pois mantinha-me mais séria que guri cagado. Mal piscava e tomava a cerveja aos golões.
Meu sangue, que estava gelado até agora, comecava a pulsar. Riam e olhavam para mim. Impinei meu nariz e me dediquei a beliscar os deliciosos petiscos assados enquanto torcia desesperancada. Eis que então o Brasil empata e eu automaticamente faco um movimento no ar com o punho fechado. Não aguentei. As mulheres atrás me encaram e não passam qualquer seguranca. Estão acompanhando o jogo porque eu sentei no meio dos rapazes. Elas, atrás.
Os muchachos, após o gol, me remetem à tela dos relógios de Dali, esmorecem nas cadeiras. Praguejam não acreditar. E finda o tempo regulamentar. Pênaltis e maravilha. Mentalmente converso comigo para não surtar. Entôo « don’t cry for me Argentina » e busco equilibrar a temperatura. Primeira cobranca, beleza. Todos se apavoram. Segunda (não lembro exatamente a ordem), gol. Terceira, haha-ha, bando de puto que se beijam (a irracionalidade dá sinais). Quarta, minhas bochechas queimam. Quinta, sexta, sétima…não faz diferenca mais ! O narrador, num castelhano de pinto molhado, avisa em tom lacônico : Brasil Campeón.
Pago minha conta com um « muchas gracias » redondo, enquanto o dono do bar, um senhor com cara de pai, me mede da cabeca aos pés com um sorrisinho amarelo. Descubro que os rapazes que me rodeavam são os músicos que animam a noite do local. Na minha saída, estão todos com cabecas baixas montando o equipamento.
Não me faco mais. Passo em frente deles e encaro o portenho que mais alto bradava no 2 a 1. Abro um sorriso de palhaco ao passar por ele. Ele fala para o outro « es brasilena ». Fecho a porta atrás de mim e viro-me : estão os quatro me olhando. Ergo os três dedinhos da mão direita e dou tchauzinho. Eles respondem com os cinco da esquerda.
Escrito por Jousi às 12h03
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Tchê?
A expressâo TCHÊ, usada em grande parte no interior do Rio Grando do Sul, jargão gauchesco é originada a partir da língua dos Mapuches. Essa tribo de índios é uma das tantas da região da Patagônia e chegou ao Brasil no século XVIII, quando Argentina, Uruguai e Brasil eram uma coisa só, via jesuítas. Significa uma expressão para chamar a atencão da pessoa para alguma coisa. Ou seja, "gente", "pessoal".
-Vamos comer mumu na Recoleta, Tchê!
Escrito por Jousi às 13h02
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Um passeio argento, pero europeu que finda brasileiro
O Hostel Sandanzas, um misto de hotel e albergue, no qual me hospedei tem um conceito cultural e pertence a um grupo de cinco amigos, que tem formacões diversas. Um é antropólogo, outro sociólogo, a mulher é fotógrafa e por aí vai. O espaco conta com quartos e beliches, living com bibliotecas e cinematecas, salas de danca, onde são oferecidas aulas de tango e esposicões. Há uma cozinha para o uso dos hóspedes muito limpinha. Ah, grande informacão : a diária custa 17 pesos, incluindo o café. Com um jeitinho, tipo pagando adiantado, sai por 13 pesos. De barbada.
Creio que eles adotaram uma decoracão inspirada no Caminito, tudo é MUITO colorido. Está lotado. Agora de manhã uma canadense teve que ir buscar outro hostel, pois só havia lugar para uma noite. Divido o quarto com duas americanas de Seatle no momento. Estão fazendo trabalho voluntário em uma escola aqui em San Telmo mesmo. O massa é que tem pessoas de todo o mundo. Hoje tomei café em companhia de uma francesa, apaixonada por Porto Alegre (conhece via mídias do Fórum Social Muncial), espanhóis de Madri e uma guria da Alemanha. Esta última tinha cravado no nariz um brinco de pérolas. Não ficou esteticamente ok, mas os olhos dela compensavam. Morena de olhos verdes e um traco alemão quando fala fazendo caretas. Há poucos homens hospedados, um de Madri e os donos do hostel.
O bairro San Telmo é o mais antigo de Buenos Aires e pode ser comparado a Cidade Baixa, porém mais cultural (tem museus e antiquários por todos os lados) e sem mendigos ou pessoas pedindo. De noite, fervilha porque muitos turistas se bandeiam pra cá atrás dos shows de tango e da culinária espanhola. Como fica próximo de Puerto Madero, do Rio do Prata, existem muitas lendas de lutas nesta região. Túneis subterrâneos, esqueletos escondidos e todo um imginário de guerras. Foi o primeiro bairro aristocrata da capital, com casas em estilo inglês e colonial. Atualmente, todos os prédios estão conservados e abrigam hostels, museus, cinemas e galerias.
Falando em guerras, os argentinos têm tantos ícones de lutas e heróis que ontem durante meu passeio contei 85 estátuas e mausoléus urbanos espalhados nos 5 km até o bairro da Recoleta. As ruas são nomeadas por todos esses heróis. San Martín, o principal herói, que libertou a Argentina, o Chile e o Peru, Belgrano, Alvear, Hipolito Yrigoyen, ….Sem contar as datas, como a Rua 25 de Mayo, Reconquista, 9 de Julho.
Todo esse orgulho vem de muito antes da fundacão da própria cidade. Antes de existir Buenos Aires no papel, havia inúmeros quartéis de guerra que defendiam fronteiras e viviam peliando com nós, brasileiros, com bandeirantes, holandeses…argentino adorava uma briga. Para o bairro Recoleta, de estilo francês, migrou a aristocracia abandonando San Telmo. Rumei para lá via Avenida Defensa, um lindo e antigo caminho, passei pelo Centro, visitei a Casa Rosada e Catedral. San Martin está repousando dentro da Catedral Metropolitana, de estilo romano, guardado 24h por dois soldados trajados. Ela cerca, juntamente com a Casa Rosada, o Cabildo (sede do governo colonial), a Praca de Maio, cenário de panelacos e mães chorosas. Ontem havia uma manifestacão dos veteranos da Guerra das Malvinas. Um tanto mais do orgulho portenho fica claro ao chegar nessa praca e ver um grupo duns 20 soldadinhos (um costume inglês certamente) entrando e saindo da Casa Rosada, dando uma banda na praca e voltando para dentro, carregando armas em punho e usando roupas cheias de firula.
Depois toquei para Recoleta. O bairro é chique e caro, com mansões enormes e apartamentos estilosos, cheios de plantas nas sacadas Localiza-se aí o Cemitério de La Recoleta, com o túmulo de Evita e vários militares da história portenha. O bairro estava cheio de turistas, muitos brasileiros e tals. Inclusive, aquele repórter da Globo que é a cara do Fernando Collor estava cobrindo, e acompanhe o nível do diálogo com outro conterrâneo que estava filmando :
Repórter – Sim, é pra Globo.
Turista- Eu vou vender minhas imagens pro SBT.
Repórter- Eles não vão comprar. O SBT não tem sede aqui. (com ar debochado)
Tsc, tsc, tsc….viva a Comunicacão Social !
Escrito por Jousi às 12h49
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pontocompontoar/diariodelviaje
Argentina 1 x 0,5 Brasil
Parti de Santo Tomé sexta feira às 22h10min. O bus atrasou consideravelmente, estava marcado para 21h45min. Já tinha uma galera vindo Paso de Los Libres. Fui entrar no carro e, empolgada, entrei na cabine do motora. Minha irmã ficou me tirando lá fora. Bem, nunca havia viajado nesses bus de dois andares. Imponentes, eu diria. São carros « coche cama », ou seja, o banco tem uns 40 cm de largura e reclinam muito. Meu assento era o 13, segunda fileira, o que me proporcionou uma bela vista quando as criancas da frente reclinaram o banco. O ângulo de cima da estrada é legal, porém impossível se desejar dormir. Os faróis dos carros em sentido contrário ofuscam qualquer sonho. Problema resolvido com cortinas. De noite não fez muita diferenca. Na chegada, deu pra perceber o quanto a entrada da capital argentina é feia e pós industrial. Me chamou atencão o quanto existem esqueletos de carros abandonados em terrenos baldios nessa área.
Ainda no início da viagem, uma simpática loira veio me oferecer a ceia. Estava com nenhuma fome. Tudo isso por 73 pesos mais o café da manhã antes de chegar a Buenos Aires.
Atrás do meu banco, uma velha não parava de rezar em tom de voz médio, que eu ouvia perfeitamente. Pelo menos era espanhol, então foi só ligar o botão do foda-se no nível 1 e relaxar. Os passageiros tinham feicões indígenas e usavam roupas neutras. Apenas um se destacou, usava uma boina azul e subiu com uma garrafa de vodka ou algo do gênero.
Passei a acompanhar o filmezito que estava rolando. Não consegui descobrir o nome da película que rodava a 30 minutos do final. De fato, era um drama policial pouco típico. Um cara assume a identidade de outra pessoa para se proteger do vilão. Tinha um lance com o assassinato do pai da guria que ele estava pegando. Lembrei direto do filme que passou no trajeto de Porto Alegre para São Borja, que custou 63 reais e de fininho oferecia um banheiro fedido : Flinstons Rock Vegas.
O Terminal Rodoviário se localiza no Retiro, um dos bairros centrais de Buenos Aires. Tem um tamanho razoável e, ao contrário do de Santo Tomé, é organizado e circulam muitas pessoas. No entanto, se encontra tudo com muita facilidade. Comprei minha passagem de volta para o dia 02 de agosto e em menos de 15 minutos, pós desembarque, estava dentro do bus 33 que me levaria a San Telmo.
Escrito por Jousi às 11h38
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